Hoje acordei.Sem saber porquê, meus pés me guiaram por corredores ebúrneos e cujas paredes soltavam um alarido musical, cheio de tons que invejariam qualquer arco-íris teimoso que voe por aí pálido. Nos meus olhos fechados, a razão fecunda finalmente a explosão dentro de mim. Sim, meus olhos estão grávidos de lindos gêmeos de minha solidão sonante.
Subo escadas lânguidas no final desses vales brancos. O canto angelical daqueles lapidícolos anjos que nada fazem cessa. Subo mão ante pé ante mão até a clarabóia iluminada por uma noite sem deuses. O inebrio de todas as drogas vagam voando, mas meus pés despertos e meus olhos gestantes não descansam, antes procuram, afastam, encontram uma pequena caixa infestada de papéis escritos.
Remexo, requebro, rebolo. Meus dedos como minhocas túmidas farejam o sabor da terra, recomida por debaixo de tudo. Não sei o que procuro.
Achei! entre as folhas infestadas de idéias repousa uma completamente alva e pura, virgem ainda da ponta do lápis. Pego-a e meus olhos se abrem, parindo. É ali, meu último recurso.
Pego o papel e o desejo. Ele também me deseja e me come com todo seus esplendor mudo. De seu infinito salta um sol, uma lua e cinco trolhões de estrelas. Agora entendo o meu repentino acordar: epifanar, finalmente.
Vejo-a (ou ela me vê), vendo-me por pouco e reparo em sua real natureza. O medo crisálido enfim borboleteando...

